Skip to main content

Sódio em série: a bateria que troca o mapa de custos antes de trocar o carro

Erik Perin
13 de fevereiro de 2026
Acessos: 7

Assuntos

Compartilhe com seus amigos

Por anos, “nova química” foi sinônimo de laboratório, protótipo, promessa com data elástica. O que muda agora é o verbo: a CATL e a Changan colocaram bateria de íons de sódio em um carro de passeio produzido em série, o Changan Nevo (Qiyuan) A06, com pacote de 45 kWh e autonomia anunciada de mais de 400 km no ciclo CLTC. Não é um alcance que reescreve recordes, é um alcance que reescreve prioridades.

A pergunta relevante deixa de ser “dá para fazer” e passa a ser “onde isso encaixa melhor”. A resposta, ao menos por enquanto, é pragmática: no mesmo território que consagrou LFP, o degrau de entrada e uso urbano. Só que com uma vantagem que lítio costuma cobrar caro no inverno: comportamento estável no frio.

Changan Nevo (Qiyuan) A06
Changan Nevo (Qiyuan) A06

O que, exatamente, é uma bateria de íons de sódio

Trocar lítio por sódio parece simples no nome, mas muda o tabuleiro em três dimensões: materiais, cadeia de suprimentos e comportamento eletroquímico.

  • Abundância e custo potencial: sódio é muito mais abundante do que lítio e menos exposto a gargalos geopolíticos. Isso não garante preço baixo automaticamente, mas abre margem para estabilizar custos quando a indústria escala.
  • Arquitetura de célula e densidade energética: a CATL fala em até 175 Wh/kg por célula na sua bateria de sódio Naxtra, um patamar que começa a encostar em LFP moderno e, por isso, deixa de ser “curiosidade” para virar “produto”.
  • Desempenho em baixas temperaturas: o sódio tende a sofrer menos com perda de potência e aceitação de carga no frio extremo. Algumas coberturas citam manutenção de alta capacidade em temperaturas muito baixas, justamente um ponto fraco clássico de químicas mais baratas.

Isso não transforma sódio em substituto universal do lítio. Ele disputa espaço, não o planeta inteiro. Em densidade energética absoluta, lítio ainda manda. Mas em custo, robustez e previsibilidade térmica, o sódio está claramente pedindo uma cadeira.

O carro é o A06, mas o recado é industrial

O Nevo (Qiyuan) A06 é descrito como o primeiro carro de passeio produzido em série com bateria de sódio. A CATL trata o movimento como início de um ecossistema de “dupla química”, com sódio e lítio convivendo por aplicação, e não por ideologia.

Essa tese explica por que o pacote escolhido é de 45 kWh. Não é a bateria para vender autonomia longa; é a bateria para vender consistência. Em carros de entrada, 45 kWh costuma ser o tamanho em que custo, massa e tempo de recarga ainda são administráveis. Some a isso uma química que promete ser mais “tranquila” no frio, e você tem um produto que mira o uso real sem exigir infraestrutura heroica.

Naxtra e CTP 3.0: quando embalagem vira tecnologia

A química é só metade da história. A outra metade é como você embala e integra.

A CATL associa o A06 à sua bateria Naxtra integrada ao CTP (Cell-to-Pack) de terceira geração. Em termos diretos, CTP reduz a quantidade de estrutura interna ao aproximar células do pack final, diminuindo peças, massa e volume. Menos “embalagem” significa melhor densidade no conjunto, custo potencialmente menor e montagem mais simples.

Em baterias de menor densidade (como o sódio tende a ser, pelo menos hoje), integrar bem é ainda mais decisivo. Você não pode se dar ao luxo de desperdiçar volume com suportes redundantes. A engenharia do pack precisa compensar o que a química ainda não entrega.

Changan Nevo (Qiyuan) A06
Changan Nevo (Qiyuan) A06

A métrica que o consumidor não vê: por que frio virou argumento de venda

O inverno é onde a bateria barata costuma “cobrar juros”: queda de autonomia, carregamento mais lento, sensação de carro “amarrado”. Se o sódio realmente sustenta melhor desempenho em baixas temperaturas, ele ganha um atributo raro no degrau de entrada: previsibilidade.

Há fontes citando manutenção de desempenho e capacidade em temperaturas extremamente baixas (na casa de dezenas de graus negativos). Mesmo que esses extremos não sejam o cotidiano da maioria dos motoristas, eles funcionam como stress test. Se aguenta ali, tende a se comportar melhor em cenários comuns de frio moderado.

O que o sódio ainda precisa provar

A estreia em série resolve o “se”, mas deixa o “quanto” em aberto. Alguns pontos técnicos permanecem como prova de rua:

  • Energia por massa no pack final: 175 Wh/kg por célula é bom, mas o consumidor compra o pack, não a célula. O ganho real depende de estrutura, refrigeração, eletrônica e margens de segurança.
  • Curva de degradação: longevidade é o assunto silencioso que decide valor residual. A química pode ser robusta, mas o que importa é retenção de capacidade ao longo de ciclos e ao longo do tempo.
  • Recarga rápida na prática: algumas fontes destacam desempenho de carga em ampla faixa de temperatura. Isso precisa se traduzir em curva de recarga consistente fora do laboratório.
  • Economia real de escala: sódio é abundante, mas cadeia industrial, rendimento de fabricação e logística definem o custo final. Abundância é condição necessária, não é a planilha completa.

O detalhe estratégico: parceria exclusiva e expansão dentro do grupo

A CATL descreve a Changan como parceira estratégica exclusiva para baterias de sódio e fala em expandir o fornecimento para o portfólio do grupo, citando marcas como Avatr, Deepal, Qiyuan/Nevo e UNI. Isso é importante porque química nova morre sem volume. A entrada em um modelo é o começo. A sustentação vem quando a plataforma vira família.

E o calendário também é um recado: o veículo é apontado para chegar ao mercado em meados de 2026. Não é uma “janela”; é uma data que obriga engenharia e fábrica a convergirem.

O que isso muda no curto prazo

Não espere uma substituição em massa do lítio. O que você deve esperar é mais interessante: segmentação inteligente.

Lítio continua onde densidade é crucial. Sódio ganha espaço onde custo, segurança e comportamento no frio definem o produto. Se isso evoluir, o mercado deixa de falar em “qual bateria é melhor” e passa a falar em “qual bateria é mais adequada”, que é quando tecnologia vira maturidade.

A partir daqui, o ponto de virada não é um anúncio. É a primeira frota grande rodando por um inverno inteiro, sem pedir desculpas.