16,7 milhões de pontos: a engenharia por trás da maior rede de recarga do planeta

Por Erik Perin
Assuntos
Compartilhe com seus amigos
A China não “instalou tomadas”; ela industrializou um sistema. Ao atingir 16,7 milhões de pontos de recarga ativos até julho de 2025 — 53% acima do ano anterior e dez vezes o nível de 2020 —, o país consolidou algo que vai além de estatística: um serviço público distribuído operando com lógica de telecom, software e energia em tempo real. Hoje, há aproximadamente 2 pontos para cada 5 veículos elétricos em circulação, uma razão que reduz ansiedade de autonomia e muda o desenho de cidade, garagem e estrada.

Onde estão esses 16,7 milhões — e que potência eles entregam
O crescimento é puxado por pontos privados (AC) em residências e condomínios — a “espinha doméstica” da rede — e por um bloco robusto de estações públicas (DC) em corredores urbanos e rodoviários. Entre janeiro e julho de 2025, entraram quase 3,9 milhões de novas unidades, com aceleração mais forte no segmento privado; o público também cresce, porém em ritmo menor, espelhando a lógica de recarga noturna em baixa tarifa e viagem assistida por alta potência.
Sob o capô, a engenharia de padrões fez diferença. O país evoluiu do GB/T para a família ChaoJi, que habilita recargas ultrarrápidas com teto técnico de até 1,2 MW em corrente contínua — arquitetura pensada para compatibilidade retroativa e interoperabilidade ao mesmo tempo em que reforça segurança elétrica e comunicação de alta velocidade entre carro e carregador. Em português claro: mais potência, menos atrito de protocolo, mais previsibilidade para quem opera e para quem dirige.

Operação em escala: software manda, energia obedece
Rede grande só funciona com software orquestrando hardware. Operadoras monitoram estado, ocupação e tarifação dinâmica em tempo real; algoritmos de balanceamento deslocam carga para horários de vale, enquanto estações DC ajustam potência por veículo conforme temperatura do pack, curva de SoC e limites do ramal. É assim que, em julho de 2025, a recarga somou 7,71 bilhões de kWh sem colapsar transformadores — um indicador de que gestão atrás do aplicativo é tão importante quanto o plug na frente do carro.
A governança também é concentrada: 15 maiores operadoras administram 84% das estações públicas, o que facilita padronização de operação, manutenção e SLA de disponibilidade — e reduz a experiência de “roleta” do usuário entre redes díspares.
AC em casa, DC na estrada: por que essa partição é racional
A malha AC (3,7–11 kW) domina onde o carro “dorme”; é mais barata, eficiente para repor energia em longas janelas de estacionamento e reduz a necessidade de picos de potência. A DC (120–480 kW e além) cobra seu protagonismo em viagem e logística: repõe centenas de quilômetros em minutos, gera giro de vaga e ainda conversa com o BMS do veículo para modular corrente conforme a química das células (LFP, NMC) e a janela térmica. O resultado macro: alta taxa de utilização nos hubs certos e baixo custo total quando a energia entra majoritariamente devagar, no horário certo.
O que essa escala muda na economia do elétrico
Preço do km: quando a recarga vira utilidade previsível, a variabilidade de custo cai; tarifas dinâmicas deslocam consumo para o vale e reduzem picos sistêmicos.
Varejo e frotas: disponibilidade pública consistente mais recarga privada barata derruba o TCO e acelera depreciação saudável (menos “prêmio de incerteza”).
Planejamento de rede: dados de sessão alimentam expansão de subestações e backhaul elétrico onde o tráfego exige, evitando sobrecapacidade onde não há demanda.
Por que interessa ao Brasil

O que a China mostra não é “quantidade por quantidade”, é arquitetura: padronização de protocolo, telemetria profunda, tarifação que conversa com o perfil de geração e um mix AC/DC calibrado por dados. Reproduzir isso aqui — respeitando geografia, matriz, renda e perfil de deslocamento — significa priorizar:
AC residencial e condominial com medição individual e incentivo tarifário;
DC de corredor onde o fluxo existe, com potências modulares e infraestrutura preparada para padrões abertos;
plataformas abertas que permitam roaming, reserva, diagnóstico e transparência de preço;
dados públicos agregados para guiar investimento e evitar “desertos de recarga”.
No fim, a cifra “16,7 milhões” é menos um troféu e mais um roteiro: quando energia, software e cidade se coordenam, o cabo some e sobra caminho.